08/03/08

Leák / Mystics In Bali (1981)

A história é muito simples, banal até. Uma Norteamericana, Catherine Kean (Ilona Agathe Bastian), está a escrever um livro sobre magia negra. Depois de ter estado noutros locais, como Cuba por exemplo, onde aprendeu vudú, viaja para Bali, na Indonésia, onde pretende aprender Leyak. Leyak é uma forma de magia negra primitiva, supostamente, das mais poderosas. Com a ajuda do seu amigo Mahendra (Yos Santo) consegue tornar-se discípula da Rainha do Leák (Sofia W.D.).
Infelizmente é extremamente difícil encontrar a versão original deste filme, mesmo por meios poucos legais, e apenas tive a oportunidade de visionar a única versão disponível, que é (muito mal) dobrada em inglês. Gostaria imenso de ver isto na língua original.
O argumento é extremamente simples, os diálogos são banais e por vezes absurdos (bom, escrevo isto tendo em conta a versão dobrada, mas a original não deve andar muito longe), os actores são péssimos e parecem estar a movimentar-se e a falar como zombies, muuuuito leeentaaaamenteee. Segundo parece, Ilona Agathe Bastian, a actriz principal, era uma turista Alemã que estava de passagem pela Indonésia e que chamou a atenção a um dos produtores do filme, que lhe ofereceu o papel principal. Este foi o seu primeiro e único filme até à data.
O som (mais uma vez, baseando-me na dobragem) é péssimo; a imagem não é assim tão má, mas quando se trata da cabeça voadora, fica logo péssima (talvez devido à “técnica” que utilizaram para esse efeito especial, com montagens e sobreposição de filmagens); a edição também não está assim tão má. Os efeitos especiais são primitivos, do tipo “vêem-se os fios dos ovnis”, mas resultam. Como se isso não bastasse, a péssima dobragem desta versão que eu visionei, ainda tornam tudo mais “far out”. Aliás, é tudo isso em conjunto que faz o filme e cria a sua aura de culto.
Este filme é bizarro, surreal, psicadélico por vezes até. Pode parecer que não, mas isto ainda me causou alguns arrepios. Tentem ver isto depois da meia-noite, sozinhos, com o quarto escuro, como eu o fiz, e depois digam qualquer coisa. A célebre cena da cabeça que se desprende do corpo ainda com as entranhas agarradas é sublime! Uma cena brutalíssima a nível visual é a da já referida cabeça a sugar um feto directamente das entranhas da mãe grávida. Seja com maus ou bons efeitos especiais, a cena é grotesca e revoltante. E quanto ao riso da Rainha do Leyak, é tão grotesco e por vezes absurdo que chega a arrepiar e incomodar seriamente!
Como se costuma dizer, é tão mau que chega a ser bom. Um “must” para qualquer fã de cinema série B, oriental, terror, fantasia e bizarrias em geral. 80%
RDS

IMDB:
http://www.imdb.com/title/tt0097942/
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Mystics In Bali (1981) - The Fying Head

Un Chien Andalou (1929)

Esta é, sem sombra de dúvida, uma das películas mais bizarras que eu já tive o prazer de visionar. Esta curta-metragem Surrealista de 16 minutos é uma parceria entre o realizador Luís Buñuel e o pintor Salvador Dali. Estes dois génios concordaram em não incluir no filme nenhuma ideia ou imagem que pudesse ser explicada de forma racional, psicológica ou cultural. De facto, na sua grande maioria, o filme não faz sentido, mas se analisarmos bem algumas situações, imagens, pormenores e simbologia, conseguimos tirar algumas ideias. Os Surrealistas eram almas livres e não-conformistas, e a sua arte manipulava a realidade transformando-a em algo completamente distinto. Os Surrealistas eram os mestres do non-sense e do anarquismo.

Uma das cenas mais arrepiantes que eu já vi em filme faz parte de “Un Chien Andaluce”. E, acreditem, a branco e preto ainda se torna mais brutal e bizarro. Em grande plano vemos o olho de uma mulher ser cortado ao meio, com uma navalha de barbear, enquanto, alternadamente, uma fina sombra atravessa a Lua ao meio, estabelecendo um paralelismo com o corte da navalha. Este é um dos dois pormenores que Buñuel (realização e argumento) e Dalí (argumento) inseriram nesta película e que, segundo se diz, representam sonhos que ambos tiveram. Este é o de Buñuel. O de Dali é a palma de uma mão de onde saem formigas. “Formigas nas palmas da mão” é uma frase francesa que simboliza uma certa “comichão” para matar. Outro dos momentos altos do filme é quando um homem puxa duas cordas que arrastam um piano de cauda, dois seminaristas vivos, as placas dos 10 mandamentos e dois asnos mortos e em decomposição. Outra cena perfeitamente bizarra é a de um/a hermafrodita que atiça, com um pau, uma mão decepada que jaz no chão.

"Sentado confortavelmente num quarto escuro, maravilhado pela luz e pelo movimento que exercem um poder quase hipnótico… fascinado pelo interesse dos rostos humanos e as rápidas mudanças de local, (um) culto indivíduo placidamente aceita o mais aterrador dos temas… e tudo isto naturalmente sancionado pela habitual moralidade, governo, e censura internacional, religião, dominado pelo bom gosto e animado pelo humor branco e outros prosaicos imperativos da realidade.”
Luis Buñuel.

“Un Chien Andalou” serve o propósito de despertar o espectador deste referido torpor em que se encontra. As imagens fortes e violentas deste filme escandalizaram a sociedade dos finais da década de 20. Segundo o próprio Buñuel, após a estreia do filme houve imensas denúncias nas esquadras de polícia, assim como pedidos de para cancelar e banir esta “obscenidade”. E segundo o próprio, começou uma perseguição e bombardeamento de insultos e ameaças, que duraram até à sua velhice
Há também uma lenda que diz que Buñuel (ou Dali, não se sabe bem qual, se é que isto realmente aconteceu) pensava que ia ser linchado na estreia desta película, por isso mesmo encheu os bolsos de pedras para atirar às pessoas. Sendo isto verdade ou pura lenda, o certo é que é genial.
E é incrível como hoje em dia, passados cerca de 80 anos, estes 16 minutos de vídeo ainda conseguem chocar e enfurecer a maior parte das pessoas que o vêem. Acreditem que já li alguns comentários bem odiosos na internet sobre este filme, Buñuel e Dalí. E isso é obra!

Resta ainda referir, como curiosidade, que podemos ver os próprios Buñuel e Dali no filme, como o homem do prólogo e um dos seminaristas, respectivamente.

Em uma única palavra: Genial! 100%
RDS

IMDB:
http://www.imdb.com/title/tt0020530/

06/03/08

Taxidermia (2007)

O filme está dividido em 3 partes, 3 gerações, 3 homens de uma família húngara (pai, filho e neto). Cada uma das partes do filme retrata a vida de um dos 3 homens e a relação com o seu próprio corpo. O primeiro é Vendel Morosgoványi (Csaba Czene). Segunda guerra mundial. Vendel é um soldado que trabalha em casa do seu Coronel. Dorme no celeiro junto com os animais. Tem uma certa dificuldade em controlar os seus impulsos sexuais, em especial com as filhas e a obesa mulher do Coronel por perto. Eventualmente acaba por ter relações sexuais com a mulher do Coronel numa das cenas mais grotescas do filme. O Coronel mata-o, mas da união carnal resulta um filho, que tem um rabo de porco.
Seguimos agora a vida de adulto de Kálmán Balatony (Gergely Trócsányi), o filho. Este é um obeso campeão de concursos de comida. Esta segunda parte é mais ligeira na narrativa, mas muito mais pesada em termos visuais. Se têm um estômago fraco, mantenham-se afastados. Ingestão de largas quantidades de comida seguida de longas cenas de regurgitação, não é para qualquer um. Eu não sou fácil de enojar com este tipo de imagens mas, já estava a ficar algo inquieto. Kálmán casa-se com uma campeã do estilo, Gizi Aczél (Adél Stanczel) e da sua união nasce Lajos Balatony (Marc Bischoff).
Passamos então à terceira parte e à vida deste taxidermista (daí o título do filme). Lajos é muito diferente fisicamente dos seus progenitores. Ele é extremamente magro e pálido, e tem uma aparência física doente, assustadora e arrepiante. Passa a vida na sua loja a empalhar animais. Cuida do seu pai, agora abandonado pela mulher, com o triplo do peso, condenado a viver dentro de casa, sentado no mesmo sítio, dia após dia. Kálmám tem 3 gatos enormes, campeões de concursos de comida, pelos quais tem mais apreço que pelo próprio filho quem, segundo ele, nunca será um campeão como o pai. Mas Lajos tem algo preparado para ficar na história. Algo deveras grotesco, bizarro e perverso.
Não sei bem o que pensar deste filme. Não tem propriamente uma história que se possa seguir de início ao fim. À primeira análise, “Taxidermia” apoia-se mais no aspecto visual do que propriamente no argumento. Quanto à realização e trabalho de fotografia, estes estão soberbos, disso não haja dúvida. Mas se analisarmos com mais cuidado, encontramos alguma lógica no que nos é transmitido. “Taxidermia” mostra-nos 3 pessoas diferentes, entre si, e em relação ao resto do mundo e com elas explora um tema algo tabu para a grande parte da sociedade ocidental, que é o corpo humano. E não o faz da maneira mais simples e ligeira. Muito pelo contrário. Sexo, masturbação, pedofilia, distúrbios alimentares, bebés com rabos de porco, obesidade mórbida, sémen, vómito, sangue, tudo faz é utilizado nesta exploração extrema do corpo humano. E isso é chocante para a maior parte das pessoas “normais”, que seguem cegamente as normas, regras, leis, ética e moral da sociedade moderna actual.
Já li diversas críticas ao filme e muita gente descreve-o como uma tentativa vã de chocar ao máximo, apenas pelo puro prazer de chocar. Mas, se tivermos em conta os inúmeros “slashers” com “serial killers” e “rednecks” deformados que abundam nos filmes de terror americanos actualmente, com a mesma fórmula repetida até à exaustão, que podemos retirar desse estilo de filmes? Sangue, violência, gore, tortura, etc. Tudo aliado a histórias simples, como já referi, repetidas até à exaustão. Nessa perspectiva, este filme é inovador, imaginativo, diferente e que desafia os sentidos.
Para quem pensa que já viu de tudo em cinema, aqui está uma nova experiência. Eu, pelo menos, nunca pensei ver algo tão grotesco e bizarro como o que podemos ver na cena final. Se não conseguiram aguentar a segunda parte, ou o fizeram com alguma dificuldade, então aconselho-os vivamente a não ver a terceira e última parte do filme. Brutal! Nunca tal coisa me passaria pela cabeça. E mais não digo para não vos arruinar o visionamento.
Longe de ser uma obra-prima, é um filme que aconselho vivamente a fãs de cinema extremo.
75%
RDS

IMDB:
http://www.imdb.com/title/tt0410730/

Dead End (2003)

Na véspera de Natal, uma família viaja de carro com destino a casa da avó materna. À noite, claro está. Em cerca de 20 anos o pai seguiu sempre o mesmo percurso, pela auto-estrada, mas desta vez escolheu um atalho. Foi o maior erro da sua vida! Conduzem durante horas a fio numa estrada em linha recta que parece nunca mais acabar. Passam pela mesma cabana e pelo mesmo sinal de tráfego vezes sem conta. Dão boleia a uma rapariga vestida de branco que parece ter tido um acidente e que carrega um bebé, mas que desaparece pouco depois. Um carrinho de bebé aparece sem mais nem menos no meio da estrada. Os membros da família começam a desaparecer misteriosamente um a um. Passa por eles um carro negro, com um condutor invisível e que leva a vítima na parte de trás. Aos poucos, todos os membros da família (os que vão restando) começam a entrar em pânico e a enlouquecer e delirar. Começam a agir e a falar da forma mais absurda e, possivelmente, cómica. Mas o humor negro contido em “Dead End” apenas nos faz roer as unhas e deixa-nos entreabrir os lábios num sorriso “amarelo”, de tão intensa que é a situação em que a família se encontra. E é isso que realmente acontece na vida real. As pessoas quando confrontadas com situações extremas agem da forma mais irracional possível! E parece que nós estamos lá também no carro, a enlouquecer aos poucos com eles. Por vezes temos direito a um momento de descontracção com uma piada ou uma situação que nos puxa uma gargalhada intensa, mas logo a seguir levamos com uma cena deveras assustadora que nos cola à cadeira e nos deixa um arrepio frio na espinha. Esta fusão de terror e suspense com comédia negra é um claro tributo às “horror comedies” populares na década de 80. Mas, ao contrário desses filmes, mais orientados para a comédia, aqui temos um verdadeiro filme de suspense. Na maior parte das vezes nem chegamos a ver os corpos das vítimas, apenas a reacção das pessoas que os encontram. E a nossa imaginação faz o resto! E acreditem que conseguimos ser mais violentos e sangrentos do que se nos apresentassem as imagens. No final, ficamos a conhecer o verdadeiro sentido daquilo tudo que se passou. Ficamos esclarecidos. Mas depois, após um par de nomes do genérico final, há uma cena extra que nos deixa a pensar, seriamente, naquilo que poderá realmente ter acontecido.
É difícil acreditar que “Dead End” é um filme de baixo orçamento. Superior a qualquer “slasher” vindo dos Estados Unidos nos últimos anos. Terror, suspense, gore (pouco, deixam a nossa imaginação trabalhar), comédia, há um pouco de tudo nesta obra-prima. Foi realizado por dois Franceses, Jean-Baptiste Andréa e Fabrice Canépa, que fizeram um trabalho soberbo a todos os níveis. Foi rodado nos Estados Unidos e que conta com um elenco de luxo. Os pais são interpretados por Ray Wise e Lin Shaye, os filhos são interpretados por Alexandra Holden e Mick Cain, enquanto que o namorado da filha é Billy Asher. Como a mulher vestida de branco temos Amber Smith e como o misterioso condutor do carro temos Steve Valentine. Ray Wise é um veterano que já não tem que provar nada a ninguém (lembram-se de “Twin Peaks”?). Quanto a Lin Shaye, nunca gostei muito do seu trabalho, mas aqui está genial. Alexandra Holden, apesar de nova, já tem um currículo invejável, e parece ter nascido para representar. Neste filme está no seu máximo. Regra geral, todos os actores e actrizes estão soberbos nas suas interpretações, à excepção talvez de Mick Cain, que não me convenceu muito.
Em suma: genial e essencial!
85%
RDS

IMDB:
http://www.imdb.com/title/tt0308152/

05/03/08

Freaks (1932)

“Freaks” é uma obra-prima do cinema do século XX, realizada em 1932 pelo mestre Tod Browning. Vindo de realizar o clássico de terror do século XX, “Dracula” (1931), Browning trabalha naquele que é um dos filmes mais estranhos e polémicos que a MGM alguma vez lançou. Filme este que foi banido na Inglaterra durante 30 anos. Não só pelas imagens algo fortes para a data como, principalmente, por ter incluído no elenco verdadeiros membros de “sideshows”. Não estamos a falar de actores disfarçados, mas sim de seres humanos com verdadeiras deformações físicas.
A história é simples. Tudo se passa num circo que, entre outras atracções, conta com um “sideshow” que inclui diversas aberrações como gémeas siamesas, um homem sem braços nem pernas, anões, um homem sem a metade inferior do corpo, uma rapariga sem braços, uma hermafrodita, um esqueleto humano, e outros. São estes os “freaks” do filme. Ou pelo menos assim parece à primeira. Mas já lá vamos à explicação.
Cleopatra (Olga Baclanova), uma trapezista “normal”, aceita casar-se com o anão Hans (Harry Earles) que conduz o “sideshow” e está perdidamente apaixonado por ela. Mas o que ela apenas pretende é o seu dinheiro e não tem o mínimo de respeito por ele ou qualquer outra das pessoas do “sideshow”. Em conluio com Hercules (Henry Victor), seu amante, esta tenta apoderar-se da herança de Hans, tentando envenenar o anão. Mas os membros do grupo, rejeitados da sociedade, mantêm-se sempre unidos, e têm as suas próprias leis e regras. Quando mexem com alguém do grupo, mexem com todos. E decidem vingar-se de Cleopatra e Hercules. Durante o filme vemos estas pessoas como o que são, seres humanos como qualquer outro, que amam, têm sonhos e ambições. Mas no final revoltam-se e tornam-se vingativos e sinistros. Mas podemos culpabiliza-los pelo acto brutal que acabam por realizar? A sociedade não os admite como parte integrante da mesma. Eles não se podem reger, portanto, pelas suas leis.
O propósito de “Freaks” é deixar-nos a pensar se os “freaks” são as pessoas deformadas fisicamente ou se serão aqueles que, como Cleopatra e Hercules, têm as almas “deformadas”. É pena que, após mais de 70 anos, a mensagem deste filme ainda seja válida. É claro que a medicina e ciência actuais conseguiram eliminar grande parte destas deformações de nascença, mas a mensagem pode perfeitamente ser adaptada ao racismo, xenofobia, homofobia, intolerância entre diferentes ideologias religiosas e/ou políticas, obsessão pela aparência física, etc. Um clássico que aconselho vivamente a todos. 100%
RDS

IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0022913/
Informações sobre o elenco: http://www.missinglinkclassichorror.co.uk/freaksnattxt.htm
Vídeo Online: http://video.google.com/videoplay?docid=6355110065089064433
Definição de Sideshow no Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Sideshow
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Freaks (1932) - Montagen Fan-made

Grindhouse: Death Proof (2007)

Antes de iniciar os meus comentários ao filme convém esclarecer alguns pontos importantes, para que se possa perceber melhor este Grindhouse: Death Proof.

Grindhouse: É um termo americano utilizado para designar uma sala de cinema dedicada apenas a filmes “exploitation” (exploração ou abuso). É também o termo utilizado para descrever o género de filmes aí visionados. As “grindhouses” eram conhecidas pelos seus programas contínuos de filmes de série B, ou baixo orçamento, programas esses que eram usualmente constituídos por uma “double feature”, onde dois (ou até três) filmes eram projectados consecutivamente.

Exploitation film: É um tipo de filme que dispensa a qualidade em detrimento de um baixo orçamento aliado ao apelo dos sentidos mais primitivos do Homem, por intermédio de puro sensacionalismo. Os filmes “exploitation” usam e abusam de sexo, violência gratuita, consumo de substâncias ilícitas, nudez, sangue, monstros, zombies, rebelião e caos puro.

Para informações mais detalhadas sobre o assunto remeto-vos para a Wikipedia (onde me baseei para redigir estas explicações): http://en.wikipedia.org/wiki/Exploitation_film

Agora já podemos concentrar-nos em Grindhouse: Death Proof e perceber melhor os seus objectivos e dinâmicas. “Grindhouse” baseia-se nesses pressupostos e é uma “double feature” que inclui “Death Proof” (“À Prova De Morte” em Portugal) de Quentin Tarantino (“Pulp Fiction”, Reservoir Dogs”, “Kill Bill”) e “Planet Terror” (“Planeta Terror” em Portugal) de Robert Rodriguez (“El Mariachi”, “Desperado”, “From Dusk Till Dawn”), interligados por 4 trailers falsos (os filmes que apresentam não existem na realidade) realizados por Eli Roth (“Hostel”), Rob Zombie (“House Of 1000 Corpses”, “The Devil’s Rejects”), Edgar Wright (“Shaun Of The Dead”) e o próprio Robert Rodriguez.

Infelizmente, e devido a questões financeiras, como sempre, os dois filmes foram separados após se ter verificado uma fraca afluência de público a esta experiência cinematográfica única. Pérolas a porcos, diria eu. Por essa mesma razão, para já apenas tive a oportunidade de ver o primeiro dos dois filmes, “Death Proof” de Quentin Tarantino. Actualmente já está disponível em Portugal o segundo filme, “Planet Terror”, e assim que possível, verei esse também e depois escreverei algumas considerações acerca do mesmo. Quanto aos “fake trailers”, isso já não sei. No DVD de aluguer de “Death Proof” não vêm incluídos. Não sei se estarão no DVD de venda ou no de “Planet Terror” (aluguer ou venda). Tenho de verificar isso. Aguarda-se, no entanto, uma edição em DVD da ideia original, com filmes e trailers em sequência.

Em “Death Proof” temos o psicopata Stuntman Mike (Kurt Russell), um ex-duplo de Hollywood que persegue e mata mulheres com o seu carro “à prova de morte”. O filme está dividido em duas partes. A primeira parte da acção desenrola-se em Austin, Texas e tem uma atmosfera muito 70s (a roupa, a música, a fotografia do filme, etc) em contraste com alguma tecnologia actual (telemóveis topo de gama). Demora imenso a desenvolver, tendo apenas como pontos de interesse as falhas de imagem, som e edição, juntamente com algum sexploitation (sem nudez, um certo tabu para Tarantino, mas Vanessa Ferlito e Sydney Poitier conseguem ser extremamente sensuais). Um grupo de raparigas constituído por Jungle Julia (Sydney Tamiia Poitier), Arlene (Vanessa Ferlito) e Shanna (Jordan Ladd) estão num bar, a beber uns copos com uns amigos, antes de partir para um fim-de-semana numa casa de campo. Fazem ainda parte desta primeira metade do filme o próprio Tarantino, como Warren o dono do bar, Eli Roth no papel de Dov, um dos amigos das raparigas e Rose McGowan interpretando uma hippie chamada Pam. Depois de cerca de ¾ de hora algo aborrecidos, a não ser pela já referida vertente visual e o tributo aos filmes exploitation, passamos à acção propriamente dita. É pouca coisa. Passa-se rápido demais. Mas é brutal.
Passamos à segunda parte. Depois de um início com imagem a branco e preto, voltamos a ter cor. Ambiente algo 80s (a imagem é “melhor” que na primeira parte, as referências a filmes dos 80s como “Pretty In Pink” de John Hughes, etc) em contraste, mais uma vez, com tecnologia actual (os ATM, ou Multibancos em Portugal). Encontramo-nos no Tennessee, onde Mike escolhe outro grupo de raparigas, que se irão revelar mais duras e vingativas que as anteriores. Abernathy (Rosario Dawson), Lee (Mary Elizabeth Winstead), Kim (Tracie Thoms) e Zoe (Zoe Bell) são as raparigas que constituem este segundo alvo de Stuntman Mike. Mais diálogo aborrecido. Prolonga-se por tempo indeterminado até ao êxtase do filme, uma perseguição de carro a alta velocidade. O pormenor de Zoe estar pendurada no capote do carro durante a perseguição arrepiou-me completamente. Imaginei-me no lugar dela e tive um arrepio na espinha durante metade da perseguição. Os papéis invertem-se. E mais não digo para não arruinar o vosso visionamento. Mas não gostei muito do final.

O “mau da fita”, o psicopata, é Stuntman Mike, mas acreditem que é dele que vão gostar. Vai ser por ele que vão torcer. Não por nenhuma das raparigas. Acreditem que estas raparigas conseguem mexer com os nervos de qualquer um. Pelo menos com os meus conseguiram. Bom, a verdade seja dita, simpatizei com a Arlene, do primeiro grupo. Mas foi a única. Talvez fosse essa a intenção de Tarantino com os longos diálogos das raparigas. De fazer com que nós próprios quiséssemos estar na pele de Stuntman Mike. De pegar no carro e querer ir atrás das raparigas.

Edição com erros, imagem com grão, imagens a branco e preto, histórias simples, violência extrema, blaxploitation, sexploitation, brutais acidentes de carro, tudo faz parte de “Death Proof”, numa homenagem aos já referidos filmes exploitation dos 70s. As já habituais longas sequências de diálogo sobre assuntos mais que mundanos e que não levam a lado algum, imagem de marca de Tarantino, também fazem parte deste novo trabalho. No entanto, estão uns furos abaixo daquilo a que tivemos oportunidade de assistir em “Pulp Fiction” ou “Reservoir Dogs” (“Cães Danados” em Portugal). Apenas quando entra Kurt Russell em cena é que as coisas começam a tornar-se deveras interessantes. O homem já não tem que dar provas do seu talento a ninguém mas, se dúvidas subsistiam ainda, estão agora desvanecidas pois a sua interpretação em “Death Proof” está sublime, e não consigo pensar em Stuntman Mike interpretado por outra pessoa qualquer. Fantástico. Aliás, as melhores cenas de “Death Proof” são todas as que incluem Kurt Russell, resultando tudo o resto num mero desfilar de diálogos aborrecidíssimos, sem qualquer interesse. Cortando algumas dessas cenas e deixando o filme um pouco mais curto, o resultado final seria muito mais satisfatório.

Há imensos pormenores que eu detestei e imensos que eu adorei e acho geniais. De qualquer modo, o filme mexeu comigo de diversos modos. Vi o filme ontem à noite e ainda hoje estou cheio de adrenalina. A odiar ainda mais as cenas de diálogo. A gostar ainda mais das cenas de carro. A exaltar ainda mais a interpretação de Kurt Russell. Depois de ler algumas opiniões na internet, verifiquei que este é o tipo de filme que tem reacções extremas, de amor e ódio. Há quem pense que é uma obra-prima e há quem pense que é uma completa m***a! E isso é muito importante num filme, que consiga criar este tipo de reacções extremas, fortes e duradouras nas pessoas!

Pontuação: 70%. Mas sujeita a alterações após o visionamento de “Planet Terror” (já vi o trailer e promete) e dos “fake trailers”.
RDS

IMDB:
http://www.imdb.com/title/tt1028528/

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